Santo de verdade, o resto é zero – Carta Circular do Padre Geral

Sociedade das Divinas Vocações

Vocacionistas

Santo de verdade, o resto é zero

Carta Circular do Padre Geral

SS. Trindade 2018

 

Roma, 27 de maio de 2018

Solenidade da Santíssima Trindade.

 

Tema: “Santo de verdade, o resto é zero”

Caros confrades, Jesus, Maria, José!
Deus Espírito Santo nos una sempre mais com o Filho ao Pai!

Com esta circular para a Solenidade da Santíssima
Trindade deste ano quero, junto a você, render graças ao mesmo
Deus Trindade pelo dom que o Papa Francisco concedeu à toda
Igreja, emanando a sua terceira Exortação Apostólica, Gaudete et
Exsultate, em 19 de março de 2018. Faço votos que todos os
confrades tenham tido a oportunidade de lê-la, mas sobretudo que se
convençam que a santidade é o que a nossa atual humanidade mais
necessita.
Padre Giacomo Capraro, frequentando os ambientes
eclesiásticos do Vaticano, devido ao seu encargo de Postulador
Geral, sugeriu, em tom de brincadeira, a alguns Bispos, de pedir ao
Papa Francisco para pagar aos Vocacionistas os direitos autorais
porque a referida Exortação, que poderia muito bem ser titulada
“Fazei-vos santos”! já estava formulada, divulgada, vivida e
proposta por um outro, antes do Papa e do Concílio Vaticano II.
Com certeza foi uma brincadeira mas que diz muito do quanto exista
do ensinamento de Padre Justino nesta Exortação. Como é
maravilhoso, consolador e encorajador ver que o convite à santidade,
anunciado com paixão, determinação, convencimento e coerência
por Padre Justino, na pequena Pianura do seu tempo, hoje é
proclamado aos quatro cantos da terra pelo Pastor Universal da Mãe
Igreja Católica, em sintonia com o Concílio Vaticano II que quer ser
o fermento da vida dos cristãos e da Igreja de hoje.
Quero refletir com vocês sobre três pontos, como temas de
meditação para todos nós, como uma simples contribuição porque a
Exortação se apresenta como um afresco, cujas pinceladas requerem
de cada um de nós um colocar a própria mão e o próprio coração
dentro da pintura, uma pintura em contínua realização, jamais
concluída, de propósito, para recordar-nos que devemos ser nós a
adentrarmos na estrada em direção da íntima união com Deus
Trindade:
1. Aquele convite para considerar a santidade como o
natural horizonte da vida cristã: “Santo de verdade, o resto é
zero!” eis a confirmação daquilo que Padre Justino intuiu desde o
início e nos indicou como o único modo de viver alegres e
plenamente realizados. Tem razão o Papa Francisco quando
reconhece em não oferecer na Exortação um tratado sobre a
santidade, com muitas definições e distinções que poderiam
enriquecer este importante tema ou com análise que se poderia fazer
acerca dos meios de santificação (GE 2), mesmo para não correr o
risco de transformar o chamado à santidade, que por si mesmo é uma
natural vocação da pessoa, em uma apologia ou em uma dissertação
prolixa, que se tornaria ainda mais inútil e enfadonho quando
aqueles que a propõem aos outros, não estão de fato disponíveis a
acolhê-la como próprio estilo de vida e portanto continuam a viver
ignorando-a e assim fazendo, iludindo-se a si mesmos. A Exortação
nos impele a nos deixar transformar pelo Senhor e pela potência de
seu Espírito.
Confesso que ficava um tanto encabulado quando ouvia Padre
Ludovico Caputo se dirigir a nós Vocacionistas com a palavra
“santo” colocada antes do nosso nome. Cheguei por mais de uma
vez até a ter a impressão que aquele seu pronunciar “santo Antônio”
como uma saudação dirigida a mim fosse uma brincadeira sem
gosto. Tive porém de me acostumar com aquela corriqueira
expressão que aos poucos me fez refletir sobre o fato que Deus não
brincava quando nos criava à sua imagem e semelhança; que não
tinha proposto a nenhum de nós alguma coisa que fosse impossível
de alcançar; que não é ciumento de Sua Santidade se bem que Ele
seja o Único e Verdadeiro Santo. Além de ser manifestação de um
grande senso de otimismo, aquela locução “santo” é também e,
sobretudo um convite para considerar seriamente a graça recebida
com o nosso batismo que purificou assim aquele homem celeste,
manchado mas não privado da sua natureza divina, redimido pelo
Sangue de Cristo e portanto destinado à eternidade. Se
considerássemos verdadeiramente a santidade como uma
indiscutível possibilidade, como nos fez compreender o nosso
amado Padre Justino, nenhum obstáculo neste mundo seria capaz de
fazermos desistir daquele “certame que nos é proposto”.
Que coisa induzia Padre Justino a exclamar também às crianças
que encontrava pelos caminhos de Pianura “faça-te santo”?
Certamente as crianças não compreendiam o significado daquele
convite, mas não viam a hora em que o santo pároco de Pianura
passasse de novo por aquelas ruas porque a santidade nele era
perceptível, portanto, conseguia transmitir aos outros aquilo que
lhes pediam. Padre Justino era plenamente consciente que no
caminho que leva à santidade não são previstas reduções ou
acomodações com comes e bebes e ainda o desconto.
Caros confrades, deixemo-nos mais uma vez tocar pela vida e
pelo testemunho de nosso amado Padre Justino. Enquanto esperamos
com alegria a sua canonização, acolhamos sua herança e façamos de
nossa vida uma atração para os outros à santidade. Por favor, não
permitais que qualquer coisa vos tire a alegria da consagração e da
unção que vos ligou a Cristo de maneira eterna e indissolúvel.
2. Aqueles santos da porta ao lado: com esta expressão o
Papa nos convida a não reduzir os santos somente aos canonizados e
beatificados. Muita gente continua a ter uma idéia muito abstrata
daquilo que seja verdadeiramente a santidade, separando-a daquela
concreta natural vocação que nos envolve a todos, mas ao mesmo
tempo busca a felicidade como o dom mais precioso que se possa
imaginar e conseguir. Então creio que seja a hora de identificar a
palavra “santidade” com a palavra “felicidade”. Os santos são de
fato pessoas felizes e plenamente realizadas!
Como apresentamos às pessoas a vocação à santidade? O
Espírito continua a agir e a graça de Deus continua a operar
incessantemente. Padre Justino, sempre muito apegado aos santos do
Paraíso, não duvidou jamais do santo que está escondido em cada
um de nós, enfim, no pecador de coração mais endurecido. Creio que
a nossa inquietação e a nossa inconformidade com quem vive de
maneira dissoluta, e mais ainda quando se trata de consagrados, seja
aquele desejo de ver manifestar-se aquela semente de santidade
original que o Espírito tem semeado em nossos corações. Nós nos
desviamos com muita facilidade de um caminho já traçado por Deus
e é por isto que o nosso coração continua a estar irrequieto até
quando não repouse finalmente n’Ele.
Não me canso jamais de agradecer o Senhor pela graça
concedida de poder rezar em comunidade sete vezes ao dia, mesmo
sabendo que de fato, só conseguimos rezar somente 2 ou 3 vezes ao
máximo; de poder escutar quotidianamente a sua Palavra que é
vivente, dinâmica, operante, consoladora e transformadora; de poder
celebrar quotidianamente a Eucaristia, fonte de vida e de santidade;
de servir aos pobres em um contexto onde me parece que tudo em
torno seja pobreza, etc, etc! Não acreditam também vocês, que
chegou a hora de tomar cada evento da vida como uma ótima
oportunidade para corresponder ao amor de Deus que nos quer todos
santos?
Como consagrados, portanto obrigados à vida comunitária, não
posso não imaginar que a porta do canto não seja aquela de um meu
confrade, assim como também ele pensa o mesmo de mim. Muitas
vezes sou induzido a pensar que entre os cristãos leigos hoje seja
mais fácil encontrar santos da porta do canto, e talvez não fosse
estranho visto que os leigos são a grande maioria dos cristãos.
Porém, não devemos esquecer que no pensamento de Padre Justino
somos nós os ministros de Deus a fazer santos, portanto, a forma
melhor de santificar os outros é sermos nós em primeiro lugar
santos, também porque não existe atração maior à santidade do que o
próprio ser santo.
Afastemos de nós a idéia de pedir desconto quando se trata de
alcançar a santidade! Não esqueçamos que santificar para nós
caminha de mãos dadas com o ser santos! Creio que a nós
Vocacionistas o Senhor reservou alguma coisa a mais justamente
pela missão a nós concedida de trabalhar pela Santificação
Universal. Tenho pensado algumas vezes que na família natural seria
mais fácil alcançar a santidade mas depois me incomodo justamente
com a palavra fácil, visto que somos chamados a empreender as
armas do combate. A consagração com certeza não é a escolha do
caminho mais fácil, mas aquela de uma maior conformação com
Cristo e por isso deve se tornar fonte de inspiração para todos os
outros cristãos.
Voltando, porém, ao discurso sobre a “porta do canto”, o fato
que o vizinho da porta ao lado seja um confrade, um consagrado
como eu, não significa que eu serei mais santo quando disputo com
ele para superá-lo nas virtudes, nem quando me lavo as
mãos dizendo que agora não tem mais o que fazer e iludindo-me,
portanto de já ter feito todo o possível! Devo me fazer santo
“com” e não somente “para”. Se a santidade é o modo ordinário em
viver a ordinária existência cristã, então a consequência não pode ser
outra: se cada vocação, se cada condição existencial for compatível
com o chamado à santidade, então não existe vida cristã possível
fora deste quadro muito exigente, é verdade, mas ao mesmo tempo,
extremamente apaixonante!
Irmão, ou somos santos suscitando uma porção de
extraordinariedade dentro da normalidade dos nossos Vocacionários,
que são as nossas residências, ou seremos somente uma soma de
conformados à uma vida apática, sem sal, sem fermento, sem
novidade, sem atração, sem alegria e sem entusiasmo!
Como gostaria, como consagrado Vocacionista, ter irmãos com
as portas do coração mais acessíveis, mais acolhedoras; com mais
trânsito e mais comunicativas. Não será de fato que as portas
fechadas revelem corações mortos, gelados e petrificados?
3. Aquelas bem-aventuranças que não são abstratas poesias
mas uma grande e concreta regra de comportamento, regra de vida:
Não é complicado ser santo, porque a graça se comunica a cada um
de maneira própria e pessoal e à esta graça somos chamados a
corresponder, cada um de maneira única. Com certeza se requer
esforço, mas a Igreja é dotada de meios adequados a sustentar-nos
no caminho em direção à santidade.
A manifestação da santidade na vida quotidiana não está na
procura de êxtases ou nos fenômenos extraordinários, mas nas bemaventuranças
vividas que se tornam a Carteira de Identidade do
verdadeiro cristão. As bem-aventuranças revelam a mesma vida de
Cristo que vai na contra mão e delineiam, portanto um estilo de vida
completamente diferente daquela vida do mundo.
Infelizmente, a mentalidade hodierna descarta qualquer
percurso vital que passe necessariamente pelo sacrifício, o
sofrimento, a rejeição, a perseguição. Me fez muito refletir sobre a
bela afirmação de um jovem, como comentário à XI estação da Via-
Sacra no Coliseu realizada neste ano: “Tu tiveste força de suportar o
peso de uma cruz, de não ser acreditado, de ser condenado por tuas
palavras incômodas. Hoje não conseguimos digerir uma crítica,
como se cada palavra fosse pronunciada para nos ferir”.
As bem-aventuranças, não nos esqueçamos, têm como pano de
fundo a perseguição por causa de Cristo e do seu Evangelho! Hoje,
por sua vez, assistimos tantas aversões contra qualquer gênero de
dificuldades como se fosse coisas que nos aborrecem, das quais
devemos nos livrar rapidamente. Vemos muitos confrades armados
até os dentes, sempre na linha da defesa, mesmo quando não exista
nada do que defender-se; confrades que não admitem uma crítica
construtiva porque em seu vocabulário a palavra “perdedor”
significa “ofensa terrível”.
Caros confrades, percorramos até o fim o caminho da
santidade, sem amenizações, sem relaxamento, sem desânimo, a
exemplo do nosso Pai Fundador, mergulhados em Cristo na doação
total à Igreja, à humanidade, às vocações! Padre Justino não cedeu
ao vitimismo diante dos sofrimentos, os quais conheceu tantos,
completando assim nele aquilo que faltou à Paixão de Cristo, para
poder ser digno de participar plenamente também da Sua glória.
Na resposta ao convite do Senhor de fazer-nos santos, o Papa
nos exorta a evitar os riscos e os limites da cultura hodierna, isto é,
ansiedade nervosa e violenta que dispersa e enfraquece; a
negatividade e a tristeza; a frouxidão cômoda, consumista e egoísta,
o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem
encontro com Deus que dominam no mercado religioso atual (GE
111), e declina com simplicidade o perfil do santo segundo as
indicações de Cristo, sobre as pegadas das bem-aventuranças:
– santo é aquele que é pobre de coração;
– santo é quem reage com humilde mansidão;
– santo é quem sabe chorar com os outros;
– santo é quem procura a justiça com fome e sede;
– santo é quem observa e age com misericórdia;
– santo é quem mantém o coração puro de tudo aquilo que suja o
amor;
– santo é quem semeia paz em torno de si;
– santo é quem aceita cada dia a via do Evangelho não obstante isto
lhe custe problemas.
Entremos, caros confrades, como Vocacionistas, naquelas
múltiplas formas existenciais de testemunhos cada um com o que lhe
é próprio, específico e peculiar carisma, porque a graça se comunica
à cada um de maneira especial e, em certo sentido, irrepetível.
Abracemos a nossa comunidade como lugar privilegiado no qual
podemos e devemos santificar-nos juntos!
A Santíssima Trindade, fonte de vida e de santidade nos
abençoe sempre!

Pe. Antônio Rafael do Nascimento, SDV

 

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