Mensagem do Superior Geral dos Religiosos Vocacionistas, Pe. Antônio Rafael do Nascimento, SDV

Caríssimo (a)

Hoje começamos um tempo forte no nosso itinerário cristão, que é aquele da quaresma. E quantas quaresmas já celebramos!
O que vem em primeiro lugar na nossa mente quando se fala de quaresma? Jejum? Penitência? Sacrifício? Renúncia? Esmola? Tudo isso continua válido mas não devemos esquecer que são meios e não meta. A meta é Jesus Cristo que nos amou e se entregou por nós. Não esqueçamos que quaresma é preparação para a Páscoa e que Páscoa é a nossa razão de ser. Quem vive o tempo todo com semblante de sexta feira da paixão, da vida entendeu pouco ou nada.
É verdade que o tempo da quaresma nos convida à sobriedade e a liturgia é a primeira a fazê-la (Igrejas sem flores, celebrações sem instrumentos musicais, missas sem glória e sem aleluia, paramentos roxos, etc), mas somente para que o coração deseje o essencial e exploda de alegria na manhã da ressurreição que é o dia sem ocaso e o eterno domingo. De vez em quando é bom se distanciar das coisas para percebermos quem somos. E a quaresma é tempo propício para isso.
A quaresma é o tempo favorável para encontrar Jesus Cristo e a melhor maneira de encontrá-lo é retirar -se ao deserto e não me refiro ao deserto territorial mas aquele que podemos construir dentro de nós, forçando espaço no coração para Deus nos seduzir, nos falar, nos amar!
O deserto é aquela capacidade de silenciar para respirar o essencial! E quanto custa hoje fazer silêncio, não é verdade? Talvez seja esse o melhor exercício para este tempo quaresmal: manter a língua presa, especialmente quando nos vem a vontade de fofocar, de caluniar, de falar mal das pessoas; manter a mente em Deus especialmente quando somos tentados a usá-la para planejar o que não é de edificação nem para nós nem para ninguém; fixar os olhos na cruz e nos irmãos especialmente quando somos tentados a pensar que posso amar a Deus desprezando as pessoas! O Papa Francisco aconselhou os consagrados a fixarem os olhos mais nos irmãos que na tela do celular, a fixar-se mais no Senhor que em nossos programas! O convite vale para todos!
A melhor estrada para encontrar Deus continua sendo a humanidade, como nos recordou Jesus na parábola do bom samaritano. O encontro com Deus passa necessariamente pelo outro e disso depende a nossa felicidade.
Lí, alguns dias atrás, um episódio que muito me edificou e compartilho com você, quem sabe, possa enriquecer nossa quaresma e reacender em nossos corações aquele desejo de amar de forma concreta e não só com discursos e boas intenções. “Só o amor cria”, dizia são Maximiliano Maria Kolbe, e a quaresma pode favorecer uma recriação na nossa vida.
O relato que segue foi recolhido por uma freira, em um livro que tem como título “Escandalosa Misericórdia” e diz o seguinte:
“Ruya vive consumada pela inquietude porque o seu menino, de apenas cinco anos, já é diabético, não obstante a sua pouca idade. Ela sente o coração partido quando evita a criança de comer doces, porém é mais forte do que ele e, escondido, os come, com os amigos. O que fazer?
Naquele tempo, nos anos cinquenta, Mahatma Gandhi recebia com prazer as pessoas que procuram conselhos porque era muito próximo do seu povo. Mesmo não sendo cristão e não sendo batizado, este homem extraordinário vivia o evangelho ao modo seu, e é belo ver como o Espírito Santo possa agir no coração de um homem de boa vontade. Ruya depositava nele todas as suas esperanças para o seu pequeno Manoj. “Por favor, dizia, fale com o meu menino! Se é você que pedirá a ele de não comer doces, tenho certeza que ele lhe escutará. Comigo não tem jeito”.
Ruya conduziu a criança até Gandhi e, depois de alguns minutos de conversação a sós, o menino retornou todo feliz e orgulhoso, mas não tinham absolutamente falado de doces. Ruya voltou para casa muito decepcionada: o pequeno Manoj continua a comer doces.
Todavia, algumas semanas depois, ainda não tendo encontrado nenhuma solução eficaz para ajudar seu filho, voltou onde estava Gandhi e lhe fez o mesmo pedido. O colóquio entre Gandhi e a criança durou de novo poucos minutos. Desta vez, o pequeno voltou convicto de não mais comer açúcar. Ruya estava radiante de alegria! Agradeceu vivamente Gandhi e lhe fez esta pergunta: Como é possível que durante o primeiro encontro com o meu filho você não lhe falou de açúcar? Uma resposta, entre as mais imprevisíveis lhe chegou como um raio de luz:
“Como teria podido pedir a um menino de abrir mão do açúcar quando eu o como todos os dias? Depois da minha primeira conversa com ele, decidi eu mesmo de privar-me do açúcar e assim pude pedir à criança de fazer o mesmo”.
Quando me deparei com essa história, bem conhecida na Ásia, sobre a pessoa de Gandhi, emetí um grito de maravilha: “Que alma sublime!” E fiquei pensativa! Qual cristão, hoje no Ocidente, teria tido uma ideia tão simples em reagir deste modo? Um rápido exame de consciência me mostrou imediatamente que no meu caso, não, o confesso, não teria sacrificado espontaneamente um alimento essencial do meu cotidiano, para convencer um menino desconhecido. E veja só! Não sou eu a esposa de um Deus feito homem que sofreu a sede para que avêssemos a “Água Viva?” Quem se deixou amarrar para dar-nos a liberdade? Quem se fez pobre para que nos tornássemos ricos? Jesus se dez pecado, como nos recorda São Paulo, para libertar-nos do pecado e fazer-nos entrar com Ele no Reino do Pai. Se deixou crucificar para nos doar a vida….
Era necessário que este magnífico exemplo nos fosse oferecido por um homem de uma outra religião e que, mesmo não sendo batizado, rezava e jejuava mais que todos nós. Sim, aquele Gandhi me fez rever o meu Evangelho! O Espírito de Cristo é como o vento, não se sabe de onde vem, nem aonde vai….”
Desejo–lhe então uma quaresma de encontro com Deus e com o irmão ou de re-encontro, caso deixemos os dois ou um dos dois em alguma estação da nossa viagem, ou simplesmente nos desencontremos por causa de alguma mágoa, decepção ou ferida. O encontro pode ser eterno, quando façamos por onde não perder os que Deus colocou na nossa estrada. E finalizo com uma outra frase que me edificou, precisamente quando perguntaram a um casal que está prestes a comemorar os 70 anos de matrimônio, qual o segredo que o manteve juntos. A resposta foi simples, maravilhosa e convincente: “Nós nascemos em uma época em que quando algo quebrava, éramos ensinados a consertar e não a jogar fora”.
Deixemo-nos então nos consertar, pela divina misericórdia!
Uma santa quaresma a todos!

 

Pe. Antônio Rafael do Nascimento, SDV
Superior Geral dos Religiosos Vocacionistas

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