Vocação e Ecologia, laços que se integram

Desbravar a problemática relacional entre vocação e ecologia, nem sempre foi uma tarefa fácil para quem alimenta a cegueira do dualismo (separação) entre ambas. Entendemos por vocação, um chamado livre de um Deus que quer se relacionar com a sua criatura. Já ecologia um sistema que abarca toda a criação no pulsar do seu sopro de vida.

Nessas pequenas linhas de conceitos que se entre cruzam percebemos que tanto vocação e ecologia são pontos de profunda integração. Deus nos chama à vida e permiti-nos o sopro da mesma, que por consequência se dá num conjunto harmonioso de vários seres criados e sopros partilhados chamados para viverem juntos/as.

Compreender a vida na terra sem antes, perpassá-la pela ótica vocacional, possivelmente é um suicídio. Fomos chamados a ser gente, a viver, a se relacionar.  Vivemos no cosmo e somos interligados uns aos outros como criaturas chamadas a enamorar-se com tudo que fora ofertado por Deus para nossa satisfação responsável.

A Igreja neste tempo de reinterpretação da nossa fé cristã envolve-nos a repensarmos a nossa relação com tudo que foi criado por Deus. A proposta da Campanha da Fraternidade do ano de 2011 “Fraternidade e a Vida no Planeta” – com o lema bastante incisivo da Carta de Paulo à comunidade dos Romanos nos diz: “A criação geme em dores de parto”. Logo seguinte Paulo nos fala que também nós sofremos com essas dores, dores estas que atrapalham as nossas relações interpessoais, desconfigurando-nos de nosso chamado primeiro, a viver.

Há aqueles/as que acham que devemos viver sem se preocupar com a existência dos outros seres, até por que vamos para o mesmo fim, a morte. Realmente essa dinâmica de conceber a vida é interessante e possui uma verdade, mas além da morte acreditamos na vida, vida esta que é soprada agora e já e clama por interação, interação esta não só entre os seres humanos, mas com todo o universo. Há varias formas de buscarmos o diálogo com os seres; em cada um, Deus colocou uma forma intima e única de se comunicar. Faz bem lembrar que essa intervenção divina não é autoritária nem impositiva, e sim baseada na liberdade de um Deus que quer se relacionar e que não se cansa de buscar meios que permitam esse diálogo.

A criação geme em dores de parto, quando dominamos de forma desenfreada todos os seus recursos, sem antes escutá-la, acolhe-la, entende-la como ungida do Senhor e requerente de todo cuidado. Há um drástico afastamento relacional impossibilitando o interagir característico da criação. Aqui faço memória de 1Sm no capitulo 26, onde Abisaí motiva Davi para que o mesmo mate Saul, mas Davi sabiamente responde “Não o faça perecer. Quem levantaria a sua mão contra o ungido de Iahweh e ficará impune?”(V-9). Essa saga expressa uma profunda reflexão para a nossa vida. Como séria importante e o quanto contribuiria para a criação se concebêssemos tudo o que Deus fez como ungidos do Senhor. E que ao relacionar-se com nós seres humanos e os outros seres, partilhássemos essa marca de unção que possibilita o respeito à vida.

Essa compreensão remeteu-nos a um reencantar-se com a criação, a entrarmos numa dinâmica que já nos dizia o saudoso Dom Helder, “um estado permanente de amorização”. A unção é pressuposto real de que somos criaturas, vocacionadas por Deus a viver na diversidade e com ela, aprendermos a lidar com a vida de forma sadia e cuidadosa. Então nos diversos setores em que nos encontramos, vamos tratar o cosmo como ungido do Senhor, não por aparência, mas como algo real e que nos move a respeitar o processo ascensional de todos os seres, respeitando, acolhendo e, sobretudo nos sentindo responsáveis por todos (Gn 1,26).

O povo de Deus no Antigo Testamento é marcado por esta relação entre, chamado (Aliança) e terra prometida. É realmente um povo que buscava essa integração de forma natural, uma vez que percebiam Deus em tudo, na colheita, nas atividades diárias. Protótipo disso é a vocação de Moisés, onde o mesmo se encontra num ambiente ecológico e vocacional, ecológico porque Deus interpela-o num momento que estava arando a terra para o sustento, vocacional, porque Deus considera o espaço ecológico de Moisés e o chama, para ir além desse espaço e das pessoas que o compõem.

Enfim, nosso trabalho nesta caminhada vocacional-ecológica, acima de tudo é de nos reconhecermos como participantes dessa integralidade de nosso chamado. Percebermos que Deus incessantemente não se cansa de chamar e cuidar de todos os vocacionados/as que Ele ama. Cabe-nos respondermos a esse processo de integralidade.

Por Edmilton Neves Romão, SDV

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